Acesso à Educação: um dos maiores desafios da mulher na zona rural

18/10/2019

Comemorou-se nesta terça-feira (15 de Outubro) o dia internacional das Mulheres Rurais. A data foi instituída pela ONU em 1995, com a perspectiva de elevar a consciência mundial sobre o papel da mulher do campo.

A ADRA traz testemunhos de mulheres do município da Humpata, província da Huíla, que não tiveram a oportunidade frequentar uma escola, mas encontram nas aulas de alfabetização uma alternativa para o aprendizado.

As dificuldades…

Margarida Rosa de 42 anos, coordenadora do fundo rotativo da associação da Jamba II, relatou que “quando eu era pequena nunca fui a escola, porque os meus pais nunca me colocaram na escola e eu também achava que não era importante, por isso nunca exigi deles. Somos nove filhos e todos ninguém estudou”.

           A mesma realça que o seu marido nunca a deixou ir à escola por questões de ciúmes. “Meu marido dizia que mulher que estuda não vai aprender nada, vai atrás de homem. Com o passar do tempo e com o incentivo da ADRA eu me tornei coordenadora e voltei a estudar.”

          De acordo com testemunho de Rosa Tchica, de 33 anos, os seus pais não viam nenhuma relevância nos estudos, obrigando-a a trabalhar na lavra. “Os meus pais nunca nos colocaram para estudar, trabalhávamos o dia inteiro na lavra e meu pai era uma pessoa muito ignorante e dizia: não tem que estudar, tem que trabalhar e ajudar em casa.”

         Rosa Tchica disse que depois de ter casado, isto aos 18 anos, o seu esposo não permitia que ela frequentasse a escola para cuidar da casa. “Quando casei aos meus 18 anos, o meu marido não deixava que eu fosse a escola, dizia que agora tens filhos e que não deves ir para a escola e muito menos pensar em estudar.”

Maria Tchacumbi de 45 anos, conta que nunca frequentou uma escola e que apenas depois do falecimento do esposo começou a estudar. “Desde os meus 7 anos de idade que eu trabalhava na lavra, na Humpata, eu não estudava. Na verdade, eu nunca tinha estudado na minha vida. Com o passar do tempo e o falecimento do meu esposo já consegui estudar sem sofrer nenhuma opressão. Eu tive 5 filhos e cuidava da casa e do marido. Sentia vontade de estudar, mas meu marido na época dizia: Para quê estudar? Agora que eles cresceram e o meu marido morreu resolvi estudar.” Contou.

“As mulheres estão cada vez mais engajadas nas aulas de alfabetização. São assíduas e participam das aulas, isto graças as visitas e os conselhos da ADRA aqui no município”. Fez saber Artur Vicente, autoridade tradicional do município da Humpata.

Actualmente, o número de mulheres nas aulas de alfabetização é superior ao número de homens, mas ainda são comuns os casos de abandono por parte de algumas mulheres. Fica visível nos discursos das mulheres que a imposição, o controlo e a violência, geradas pelas relações desiguais de poder constituem as principais barreiras no acesso da mulher à escola.

Motivação…

A participação das mulheres nas aulas de alfabetização pode demonstrar que de alguma forma minimizam-se os comportamentos de inferioridade que pesam sobre as mesmas. Nessa perspectiva, apresentamos abaixo algumas razões que motivam essas mulheres a retornarem e permanecerem nas aulas de alfabetização, assim como as suas projecções para o futuro:

“Eu sei assinar meu nome, mas não é do jeito que eu quero, por isso eu voltei a estudar e também porque o meu maior objectivo é aprender a ler.” Frisou Maria André, membro da associação dos camponeses da Jamba II.

“Hoje se você não estuda você não consegue nada na vida. Eu digo isso sempre lá em casa, quero estudar para eu aprender a ler e escrever, chegar a um lugar e não ter que perguntar as coisas a ninguém.” Referiu Maria André.

“É mau chegar no hospital, por exemplo, te dão os papéis de indicação de cada área, tudo bem explicado e você tem que perguntar porque não sabe ler” Concluiu.

Hoje, Maria André, Maria Tchacumbi, Margarida Rosa e Rosa Tchica são membros da associação dos camponeses da Jamba II, município da Humpata. Ambas frequentam a quarta classe do módulo “Sim Eu Posso”. Desde sempre tiveram como foco saber ler e escrever para melhorar o desempenho das suas funções na associação que pertencem.

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