Pensar em grande e agir na medida certa

26/8/2019

Tenho reafirmado vezes sem conta que a mania das grandezas que nos caracteriza é um dos maiores constrangimentos ao desenvolvimento do país e ao bem-estar do povo angolano.Tudo seria diferente se tivéssemos a humildade e o realismo adequados às nossas capacidades. Queremos todos ser doutores sem fazer o esforço necessário para o sermos.Queremos ser ricos sem trabalhar para tal. Queremos ser os melhores do mundo sem que sejamos capazes de ser os melhores do nosso bairro. Queremos um governo que resolva os nossos problemas – de todo o tipo – e não fazemos o melhor que podemos para cumprir as nossas obrigações de cidadão.

No mês de Janeiro tive o grato prazer de participar na Semana Social organizada a cada quatro anos pela CEAST e pelo Instituto Mosaiko para a Cidadania. Foi uma actividade bonita, modesta, sem ostentações, mas com um elevado nível na qualidade das intervenções, pelo menos das que ouvi, das quais destaco as do economista português Roque Amaro e da nossa historiadora Conceição Neto.

Começo por esta última.No seu estilo irónico e mordaz, Conceição Neto deu a entender, tendo em conta o facto de estarmos num ambiente católico, que só por milagre seriam atingidas as metas do Plano de Desenvolvimento Nacional 2018-2022. Comparado com outros planos e outras metas – e bastaria recuarmos a 2008 para provar isto – este até nem é dos piores.

Porque não fazemos“bons” planos? Conceição Neto dá a resposta. Porque não conhecemos, porque ignoramos a história, porque desprezamos o conhecimento e as experiências acumuladas ao longo dos tempos, estejamos a falar do que está escrito em bom português em publicações que ninguém consulta ou na memória colectiva dos povos permanentemente ignorados e excluídos. Não se pode imaginar desenvolvimento sem conhecimento.

Continua Conceição Neto. “Um dos obstáculos ao nosso desenvolvimento, em vários aspectos, é precisamente a ignorância sobre o que já foi feito, o que já foi tentado, o que já foi idealizado. E o que já falhou ou teve sucesso, e porquê. Seja o conhecimento acumulado nas práticas dos camponeses, ou nas experiências das organizações mais diversas, ou nas discussões académicas, tudo isso é conhecimento que pode e deve ser posto ao serviço dos ditos "planos de desenvolvimento". … “Parece que andamos a recomeçar sempre do zero, ou quase. Adoptamos facilmente novos documentos,linguagens e formatos de programas gerados algures, por vezes em sociedades bem diferentes da nossa, mas olhamos muito pouco para o conhecimento produzido cá dentro, gerado cá dentro, a diferentes níveis.” … “Vêm novos técnicos, novos assessores, novos modelos ou simplesmente novo software e partimos do zero outra vez.”

Para que fique claro, tal como a historiadora, não REJEITO novos conhecimentos nem o progresso, como por vezes sou acusado. Acho é que qualquer novo conhecimento tem de ser encarado na perspectiva do seu controlo pelos seus utilizadores, quer falemos dos agricultores familiares e dos trabalhadores em geral de qualquer sector da economia, quer dos técnicos e altos funcionários dos ministérios, quer dos próprios governantes. Poderia citar uma longa lista de políticas, planos, programas e projectos que foram concebidos por consultores experimentados e tecnicamente bem qualificados que não saíram do papel ou foram implementados sem que alguma vez fosse avaliada a sua execução. Por exemplo, será que os responsáveis pela elaboração do Plano 2018-2022 avaliaram, de acordo com os métodos e instrumentos universalmente aceites, o Plano Nacional 2013-2017, os Planos Provinciais no mesmo período, os Programas de Combate à Pobreza, e tantos outros documentos de orientação?

É também disso que se fala quando se fala de desenvolvimento sustentável. Para mim, desenvolvimento que não é sustentável,isto é, continuado no tempo e inclusivo na abrangência, não é desenvolvimento.Foi disto que o Professor Roque Amaro falou na Semana Social, referindo a componente “integral” introduzida pelo Papa Francisco.

Numa altura em que o mundo se debate com crises económicas e de valores, na base dos quais não podemos deixar de incluir a corrupção que atingiu transversalmente quase todos os regimes políticos, temos de saber encontrar nas diferentes formas de economia solidária as alternativas que possam responder às capacidades das pessoas, tanto do ponto de vista dos recursos financeiros como tecnológicos ou outros. Não consigo perceber como é possível pensar que uma economia agrícola que depende em 80% de agricultores que não dominam a roda nem o motor possa continuar a sonhar com soluções só ao alcance de agricultores do chamado mundo desenvolvido, mantendo a sua base produtiva subordinada à enxada e à energia humana.

Se em vez das ideias e projectos megalómanos e irrealistas nos preocupássemos em conhecer os verdadeiros problemas, despidos dos habituais preconceitos, facilmente perceberíamos que é melhor pensar em aumentar cinco vezes a produtividade do trabalho recorrendo a tecnologias simples,possíveis de serem controladas pelos agricultores, do que pretender multiplicar por cem tal produtividade por um curtíssimo período pois rapidamente se assiste à sua deterioração, ao mesmo tempo que se vê aumentada a dependência do exterior e a dívida externa.  

Isto é o que na minha opinião se pode dizer pensar grande, pois é pensar em desenvolvimento sustentável e integral ou o que se queira, mas sempre numa perspectiva continuada e inclusiva. Pensar grande e agir na medida certa para permitir a inclusão dos pequenos. Os grandes que não se preocupem, pois nessa perspectiva só terão a ganhar, de modo mais sustentado. É uma perspectiva que se enquadra na ideia do projecto nacional que tenho defendido e que me parece mais realizável agora com o Presidente João Lourenço, apesar das insuficiências do seu Executivo, do seu partido, dos partidos da oposição e da sociedade civil. Por estas insuficiências devemos pensar que sem inclusão não se irá lá.    

PS 1 – Nenhum candidato aprovado no exame de acesso à Faculdade de Ciências Agrárias só mostra a razão do meu artigo de Janeiro sobre o estado do ensino no nosso país. Felizmente estão a ser tomadas medidas para mudança deste estado. Podem não ser as melhores, mas não são iguais às de antigamente.

PS 2 – Autorizar um investimento de 122 milhões de dólares num projecto de irrigação na Quizenga (Malanje) sem se ter em conta o estado calamitoso de quase uma dezena de projectos do mesmo tipo (irrigação)implementados desde 2004, dos quais apenas se aproveita um, só mostra que o que eu digo acima faz mesmo sentido. É preciso parar para pensar grande e agir na medida certa. A não ser que haja uma explicação que não foi dada, foi um erro,Senhor Presidente.

Fernando Pacheco, 14-2-19

Membro do OPSA

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