CONVERSA NA MULEMBA: REGRESSOS INDESEJÁVEIS

22/6/2020

Fernando Pacheco, 19-6-2020

Vivemos uma das situações mais difíceis da nossa vida de país independente. Mas é bom recordar, para quem tem má memória, outros momentos trágicos, como as diferentes guerras, particularmente a da segunda fase da guerra civil, o 27 de Maio, para citar os mais relevantes. O sofrimento de largos segmentos da população, com mortes violentas, estropiamentos, prisões, fome e muita, muita miséria, não se pode apagar da nossa memória. Os angolanos padeceram mas foram criando os seus mecanismos de resiliência.

Isso explica, em grande medida o modo como se está a fazer frente à pandemia e à crise económica, social e institucional que, convém sempre lembrar, vem de longe. Apesar do necessário e justo reconhecimento do esforço do Executivo em procurar fazer o seu melhor – o que nem sempre acontece, como veremos adiante - “é importante aqui dizer” que esse reconhecimento deve ser estendido aos profissionais de saúde, aos elementos das forças de defesa e segurança, aos empresários, às kínguilas, aos mercadores e transportadores, aos operários, aos agricultores, aos taxistas, aos que se empenham em acções de solidariedade sem a preocupação de terem as câmaras das televisões por perto, enfim, a quantos têm mostrado as evidências dessa resiliência forjada ao longo de décadas e mesmo de séculos. Em respeito a todas estas pessoas e entidades, temos de denunciar o bota-abaixo de quantos estão mais preocupados com a subida do “preço” do dólar (sem perceberem, ou sem fingirem perceber, o lado positivo da questão), com a possibilidade de não puderem passar o verão na Europa ou de não terem acesso a determinados bens importados manifestamente supérfluos.

Contudo, o Executivo tem de fazer um esforço para entender a realidade actual e que há agora muito mais escrutínio por parte da sociedade. Há muita estupidez nas redes sociais, mas também por lá anda gente séria e com igual ou maior patriotismo quando comparados com alguma da gente do poder que teima em tomar decisões que vão ao arrepio dos interesses nacionais e principalmente das largas camadas da população consideradas desfavorecidas. Se o País (insisto, não o Executivo) está a fazer um esforço exorbitante para dotar o serviço de saúde de condições para enfrentar a pandemia, temos de ter sempre presente que isso resulta da péssima prestação do Governo nessa área desde 2002, quando, em vez de tratar de garantir os serviços sociais básicos (água potável, saúde e educação prioritariamente), esbanjou dinheiro do modo como todos sabemos e promoveu a roubalheira descarada.  

Se o Executivo entender a realidade, tem de transmitir confiança, não apenas à “nossa população”, como insistem alguns governantes, mas a todos os cidadãos, aos angolanos entendidos no seu todo e na sua diversidade. Caso contrário uma parte da população assume ter o direito de pensar que, afinal, dado o nosso histórico, quando se fala da “nossa população” está-se a falar da população “deles”. À saída do Encontro do Presidente da República com a sociedade civil a 29 de Maio, uma dirigente da UNITA reclamou o facto de todos os que usaram a palavra serem do MPLA ou próximos. Apesar de não ser totalmente verdade, e porque se poderá dizer que não se tratava de um encontro com a sociedade civil, o certo é que um dos oito oradores é deputado do partido no poder, o que põe em causa o carácter do Encontro e a própria definição de “sociedade civil”. Se o Executivo entender a realidade, perceberá que esse sentimento de exclusão é muito mais amplo do que se supõe e tem vindo a aumentar, numa altura em que a unidade é tão necessária.

Se hoje há mais escrutínio por parte da sociedade é porque o País está mais aberto e isso é inequivocamente mérito do Presidente João Lourenço, por muito que o neguem os seus detractores. Mas na sua “perestroika” o Presidente não pode ficar a meio do caminho, sob pena de vir a pagar caro. Na sua entrevista ao Novo Jornal de 12/6/2020, o antigo Presidente da UNITA, Isaías Samakuva, afirmou que “se João Lourenço não avançar com determinação poderá ser absorvido”. Dir-se-á que essa frase está ferida pelo interesse do opositor, mas a verdade é que ela é assumida por largos segmentos da sociedade, incluindo por insuspeitos fazedores de opinião. Está a faltar visão ao Presidente para entender este quesito e isso reflecte-se em alguns actos de governação que dão ideia de um modo errático, isto é, irregular, no processo de tomada de decisões.

Quando li a entrevista de Samakuva veio à minha mente o que um velho amigo, que penou longos anos na cadeia da PIDE pela sua militância no MPLA, havia perguntado dias antes no seu jeito brincalhão: a AJAPRAZ mudou de nome? Agora chama-se Jovens Solidários? De onde sai o dinheiro com que andam a fazer “solidariedade”? E porque é que fazem tal “solidariedade” com camisolas onde está estampado o nome João Lourenço? O Presidente não havia dito que não permitia o uso do seu nome para efeitos de propaganda e culto de personalidade, como acontecia com o seu antecessor? E que dizer quando se ouve que o Kwenda é um programa de “iniciativa” Presidencial? Que más recordações isso nos traz?

Mas parece haver outras tentações de regresso a maus hábitos na linha da tal “absorção”. Uma delas é o do diálogo com a sociedade restringido aos “nossos”. Por muito competente que seja a Comissão Multisectorial para Prevenção e Combate à COVID-19, mandam as mais elementares regras de bom senso que para esta situação tão complexa se deve exigir muito debate entre profissionais de todos os sectores com experiências e visões diferenciadas. O jornalista Gustavo Costa criticou no último número deste jornal os médicos que não criticam publicamente o que está a ser feito, o que significa que há opiniões divergentes. O Dr Luís Bernardino, em diferentes jornais, e o Dr Jeremias Agostinho na TV Zimbo, de modo mais radical ou mais moderado, provam a existência de tais opiniões. Porque não se promovem debates entre esses médicos com opiniões diferenciadas do ponto de vista técnico-científico? E porque não entre médicos e economistas com o mesmo carácter para analisar o candente tema do equilíbrio entre saúde e economia de que tanto se fala? E alargado a profissionais de educação sobre a reabertura das escolas?

Parece-me que este formato seria muito mais indicado do que o utilizado no Encontro do Presidente da República com a sociedade civil. Parece-me também que debates deste tipo deveriam ser realizados nas diferentes províncias porque é natural que muitas soluções locais sejam encontradas para problemas locais que não têm de esperar por decisões de nível central. E agora é legítimo perguntar se a polémica à volta dos testes, que tudo indica ser o maior dos nossos imbróglios de momento, não poderia ter sido resolvida através de uma discussão mais alargada.    

Isto conduz-nos a uma terceira tendência de regresso. Não chego ao extremo de dizer, como já ouvi, que o contraditório tenha desaparecido da comunicação pública. Mas é certo que o espírito crítico que vimos nos primeiros tempos da Presidência, quando se dizia que voltara a valer a pena ouvir ou ler os media públicos parece estar a ser abandonado gradualmente. Por exemplo, não se entende porque não tem a TPA, como faz a Zimbo, algum médico a analisar as informações prestadas diariamente pela Comissão Multisectorial.

Quando se pretende governar com o cidadão é importante que este esteja bem informado. Isso transmite confiança. Mas a confiança será maior se a informação for diversificada e, sobretudo, debatida, escrutinada. Se o Executivo pretende ter a colaboração da população, no seu conjunto, tem se abrir à crítica através do debate e da negociação, fundamentais para os tão necessários consensos.

PS. A Baixa da cidade de Luanda foi destruída sem dó nem piedade pelo novo-riquismo das últimas décadas. Tratava-se de uma relíquia arquitectónica que num futuro mais ou menos próximo teria um valor turístico inestimável. Se para recuperar o valor da Fortaleza for necessário “transladar” um shopping, porque não fazê-lo?

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