HAYLEKA, OS JOVENS E AS REVOLUÇÕES

20/1/2020

Quando naquela madrugada fria de fim de cacimbo de 1959 passei por Dala Uso a caminho da mítica Luanda onde iria frequentar o Liceu, acreditei que poderia não voltar a ver aquela paisagem nunca mais. Luanda era o desconhecido, era o infinito.

Não sei se voltei. As águas de um rio não correm duas vezes pelo mesmo lugar. Aquela estrada que me levou às utopias da vida era um caminho sem regresso. Ou com regressos diferentes.

Em Luanda acompanhei de perto o início da luta de libertação nacional e os horrores da repressão que se abateu sobre inocentes e não inocentes. No Liceu comecei a formar, ou melhor, a consolidar, porque as marcas já vinham do meu pai e do meu tio, a minha consciência nacionalista e de defensor dos agora chamados mais desfavorecidos. Estive do lado dos meus companheiros que foram presos e torturados pela causa da independência, e exultámos e sofremos com os avanços e recuos da luta.

Viviam-se os fabulosos anos 60 e depois 70, que transformaram o mundo. Eram tempos de revoluções e de utopias, só possíveis pela irreverência dos jovens de quase todas as latitudes. Só possíveis porque antes, muito antes, aconteceram outras revoluções e utopias. A revolução francesa, a americana, a russa, todas elas explicam os espantosos ganhos cívicos, políticos, económicos, sociais e culturais que moldaram a vida dos povos depois da Segunda Guerra Mundial. Houve erros e crimes, é verdade, mas a ascensão dos povos colonizados à independência, os progressos contra o preconceito racial, a redução da fome em países como a China, a Índia, a Etiópia, entre outros, foram conquistas enormes para a humanidade. Em países como os do Norte da Europa, por exemplo, as lutas políticas permitiram o alargamento progressivo dos direitos humanos com a incorporação dos direitos económicos, sociais e culturais (DESC). Ficar indiferente a isso é, tenho que dizê-lo, criminoso.

Essa caminhada para a utopia conheceu um doloroso retrocesso a partir dos anos 80. Erros e crimes acumulados foram aproveitados para se impor um novo modelo económico que provoca saudades do capitalismo “civilizado” de então, contestado nas ruas de Paris nos anos 60. Com a queda do Muro de Berlim imaginou-se a vitória definitiva dos direitos humanos, pois era suposto que finalmente os direitos cívicos e políticos (DCP) seriam universalmente adoptados. Mas aconteceu exactamente o contrário. Eliminado o inimigo da guerra fria, os DESC deixaram de ser uma preocupação e com isso assistiu-se à degradação dos DCP. É fácil, pois, perceber os avanços das extremas direitas pelo planeta e a fragilização crescente da democracia.

O modelo económico triunfante levou à degradação das condições materiais da maioria da população mundial e a uma globalização do medo. Medo da fome, da pobreza, do desemprego, do chefe, do governo, da polícia, da seca, das chuvas e até do futuro. Um medo sem esperança de melhoria. Pelo contrário, uma minoria cada vez menor assume-se sem medo porque tem segurança e seguros de todo o tipo, porque sabe como driblar a justiça e tem meios para não temê-la, porque pode mudar de país, de residência ou de nacionalidade quando e como quiser.

Perante isto, como se comportam os jovens? Correndo o risco de excessivas generalizações, mas observando o que vai pelo mundo, direi que a partir dos anos 80 os jovens demitiram-se das lutas sociais e políticas. Não foi um regresso à “minha política é o trabalho” que marcava os alienados (os que não queriam saber da independência) da Angola colonial dos anos 60. Foi uma adesão à “minha política é o meu bem-estar”, sem perceberem os riscos dessa opção. Hoje, quando o mundo entra numa perigosíssima instabilidade, muitos jovens mostram dificuldades em entenderem as razões dessa escalada e dão mostras de uma profunda desorientação.  

Entre os idosos, os da chamada geração da utopia, a descrença vai ganhando lugar. “Não foi isso que combinámos”, diz-se. Lembro-me então de um personagem de Érico Veríssimo, Vasco Bruno, que depois de ter participado na guerra civil de Espanha, regressou desiludido ao seu Brasil pensando que o melhor era dedicar-se à criação de galinhas ou algo parecido. Não me revejo em Vasco Bruno. Pepetela afirmou há tempos que era 50% optimista e 50% pessimista. Eu prefiro não falar em números e dizer que sou moderadamente optimista. Porque vejo sinais de inconformismo e, sobretudo, porque finalmente surgem novas causas que podem levar os jovens a perceber que terão todo o interesse em abraçá-las para a sua própria sobrevivência. Refiro-me às causas ambientais e às aparentadas mudanças de paradigmas na produção e consumo de alimentos e de energia e de bens muito menos prioritários.  

Um dos grandes desafios do futuro a curto prazo terá de ser recuperar a essência dos direitos humanos e actualizá-los à luz das mudanças do mundo de hoje. Uma luta que terá de ser protagonizada pelos jovens de hoje como uma nova utopia. Para vencerem o medo e voltarem a ter em esperança.

E assim regresso a Dala Uso, para onde, afinal, sempre regressei com o Hayleka a partir de certa altura. Um regresso lento, que se saboreia como a manga da nossa vida. Foi em Dala Uso que a família Calado (descendente do primeiro europeu que se instalou no Libolo, ainda na primeira metade do século XIX) se cruzou com a família Pacheco. O Hayleka adorava o local e possivelmente sentia por ele a mesma atracção que alguns dos meus irmãos e eu sempre sentimos. Porque ele era um verdadeiro amante da natureza.

O nome dele foi inspirado no do filho de um amigo kuanyama. Aos cinco ou seis anos ele disse-me que preferia que se chamasse Bruno. Não me preocupei com o facto. Aos sete ou oito anos contou-me, com orgulho, que a uma pergunta da professora sobre frutas preferidas ele, ao contrário dos colegas que haviam respondido uvas e maçãs, tinha escolhido bananas e mangas. Mais tarde, depois de ter protestado por ter ido estudar para a África do Sul, disse.me duas coisas importantes: que afinal adorava o seu nome e que nesse país havia entendido a importância da africanidade e o espírito mandeliano. Isso viria a marcar a sua personalidade.

O Hayleka não era um jovem alienado. As suas preocupações sociais e políticas eram muito profundas. Ele não se revia na vida de fausto e nos anseios de muitos dos jovens da sua geração. Lembro-me das palavras que ele dirigiu ao Luaty Beirão quando este saiu da cadeia. Ele achava que uma Angola boa para se viver teria de ser, terá de ser, uma Angola onde liberdade, solidariedade e justiça social não podem ser palavras vãs ou preocupações apenas do Natal. Ele criticava duramente o comportamento luxuoso das elites angolanas.

Segundo um amigo, o Hayleka era uma pessoa simples, humilde, simpática e muito inteligente. E eu acrescento, um cidadão digno, um bom filho e um pai extraordinário.  

Fernando Pacheco, 15-1-2020

Membro do OPSA

Download PDF

Partilha

1
FACEBOOK
2
TWITTER
3
YOUTUBE